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Desacostumado

Estou habituado às alegrias complexas:


Um olhar de verdade

Um toque de verdade

Uma voz de verdade.


Trocar a noite pelo dia...

Não, não.

Não é do meu feitio.

Encarar a face magenta da multidão

E descobrir pacientemente ali no meio

Alguma perebazinha digna de nota.


Pular de praia em praia

Correr de braços abertos

E cantar a liberdade

(Com notas desafinadas)

Abraçar a espuma corrosiva da água do mar

Cheirando a enxofre e peixe morimbundo.


Rir para o nada

Pois o nada é mais engraçado

Fazer nada

Pois fazer nada, é mais confortável.


Não estou habituado

A não sofrer como os desgraçados

Que se embebedam de livros e idéias

E não conseguem debater alguma

Pois a música é muito alta

E os ouvidos são muito surdos.


Só estou habituado à voz

Que em silêncio sagrado atinge

Os tímpanos da alma doente

Que lamenta ao fantasma impassível

Aquele que com apenas um dedo

Amargura o espírito inquieto.


À voz que me tange de água fresca

E me faz pensar por hora

Que sou imortal.

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A Praça

Chegando na praça central Ouço os ecos e os rumores De uma vida que parece outra Os risos de andarilhos sem caminho Os caminhos de passos tortuosos O desgaste do que antes fora arte As estátuas sem nome Os nomes nas placas sem história Folhas caídas pelo chão  Os recortes no ar, de galhos retorcidos Ominoso, lugubre e risonho Será que um dia voltarão a florescer? A cada suspiro uma mão distante me acena Miragem ou ilusão, um consolo de memória. Por que tão vazia? Por que tão pouco visitada? Por que assim, remota, esquecida? Cercada de casas sem família Cercada de muretas sem ter o que proteger Nesta praça de ruas que não vão e nem chegam Somente o velho reina Meu filho, diz o vento, é assim mesmo. Quantas vezes soube tu, alguém que guardasse teu nome? A praça tem som de tranquilidade e cheiro de saudade.

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