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Do câncer da minha alma

Eu navego de foto em foto, de fato em fato, sedento por um espaço naquela brecha, naquele local. Deus do céu, quanto é preciso para que um homem enlouqueça de solidão ou de saudades? Ou como se chama mesmo aquele sentimento obscuro de uma saudade dos lugares que não estivemos.

Fotos antigas dos amigos... não mesmo, elas estão todas presas na minha memória. Estas fotos senhores, elas não existem. Pouca diferença faz aquilo que pensamos, ou o que sentimos. Tanto faz os pensamentos profundos quando na verdade queremos só esquecer de todo esse lixo que é a vida. Voamos como urubus de podridão em podridão, é assim mesmo ciscando, nestes tempos de incertezas, procurando os nossos pedaços.

Ah Deus, há quanto tempo abandonamos os aconchegos de nossos corações e caímos no conto mal falado das ilusões? Inteligência, beleza, carisma, tudo sem provas, para que precisamos delas? Eu só gostaria de saber o quanto alguém precisa de mim sem que eu precisasse provar a minha qualidade ou utilidade. Quem já soube se sentir assim, frágil, rendido aos sentimentos mais desavergonhados, de admitir uma derrota tão frêmita, de braços arreganhados, de pernas arreganhadas, sem vergonha de molhar o travesseiro pra abafar o  choro do tanto que temos vergonha?

A muralha mais pretensa e forte é ao mesmo tempo a muralha mais esquecida. Ah soberba inútil e desnecessária, ah verborragia falida, tudo isso só esconde uma coisa: fraqueza. Por trás dos óculos, das lentes, ou até mesmo da maquiagem exagerada só é possível perceber com sutileza os gritos desarranjados por socorro.

Não uso óculos, nem lentes, pois meus olhos azuis são autênticos, tão pouco uso maquiagem. O que esconde a minha pretensão então? Um discurso fajuto, cheio de palavras redondas, dicionarizadas, perdidas no além, no inconsciente, perdidas no ar? Um arranjo de palavras bem ordenadas mas que pouco sentido faz, um desapego pelo caráter, pela dignidade, um prolixo desabafo, cheio de uma dissonância intensa? Cores fortes, primárias, firmes, vivas, querendo esconder o branco da tela, da moldura? Uma forma esculpida naquilo que foi apenas um pedaço ignorado de pedra, de gesso, ou um gesso que antes foi só cal, pó, água, nada mais de considerável até prender a nossa atenção no inútil desnecessário, no esconderijo, numa busca por definição? Uma falsa arte cheia de perguntas, cheia de teorias, cheia de tentativas de investigação pelo óbvio, pelo pouco suspeitoso?

Sinto saudades dos tempos que nunca tive, que nunca busquei, que nunca percebi, assim como percebo hoje (e como dói oh santo Deus) que poderia ter feito.

Quantas saudades dos meus amigos que estão por aí.

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