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Diafonia

Não à taciturna voz dos poetas em decadência
Não ao discurso com começo, meio e fim
Não ao passado memorial contemplado pelos fiéis da dor
Não aos deuses que como tributo ao sofrimento pedem-nos mais sofrimento

Não à negação dos que não devem ser negados
E que pedem como exemplo

O da pessoa de olhar profundamente triste que todos os dias bebe um café de padaria
[apenas para ter a sensação do riso fácil do funcionário que foi treinado a rir para as pessoas.

O que telefona para o serviço de atendimento e pede socorro.
O que dirige ao trânsito, caçando olhares no congestionamento.
O que vai ao parque de imaginações e joga migalhas aos que por ali passam.
Que adquire sobrecasacas de brechó e sente o aconchego familiar de outrém.
O daquele que parece louco, por conversar com plantas ou animais.
Os que não querem abandonar as camas dos hospitais pelo medo das salas vazias
O que passa horas no escritório para passar as horas de ficar em casa.

Não ao poema repleto de subjetividade.
A roda aqui é uma roda
O fogo aqui é o fogo
E o sexo é sexo
O amor aqui não me pertence
E o rancor subliminar não está nas frases frias e sem contexto
- Não me interessa mais. Não me fale mais. Não me venha mais.

Não (oh Deus!) às amizades por insistência!
Aos pedintes emocionais, cuja esmola não se estende a mão!
Não (oh Deus do céu) àqueles que pouco se deram do tanto que receberam
Não às revoltas juvenis da perda imatura dos momentos celestiais!
Quantas dores sente uma serpente para trocar de pele e se ver nova serpente!

Quantos exércitos, Deus, quantos exércitos?
Todos os exércitos
Nenhum exército
Um único exército
Novos exércitos.

Quantas flechas em nome de Deus Pai todo Poderoso
Contra o Filho do Espírito Santo Amém.

Não ao rancor desfalecido pela não aceitação
Não às lágrimas solitárias e a este pensamento filosófico:
- Uma árvore faz um baque no meio do nada, e se não houver alguém para ouvir fará
[barulho?
- Um homem faz barulho no meio do nada, e se estiver sozinho, ele existe?

Não àquele sentimento que faz parecer tudo tão maior e grandioso!
Não aos pontos de exclamação sem vergonhas que só fazem pontuar algo abstrato!
Não ao...
... falta ar...
... fôlego...
... fal... ar...

Não a eternização do desastre individual
Não à solidão eterna em meio ao vendaval
Homem ao mar e peixes.
No excesso de pensamentos da selvageria moderna
Que caça à sua caça na autoflagelação da razão.

Não às artes da reflexão sombria sobre um futuro que pode não ser.
Não ao estar em sombras no meio do deserto, refletido na majestade solar.
Modernas civilizações na pré-história do julgamento pessoal
Ao amargo sabor da ciência medicinal que me dá mais uns anos de respiração
E aos motivos que fazem descrer da cor
Não a negação de tudo aquilo que sempre rejeitei
E que não aceita a liberdade do ser, cuja prisão permanece nos olhares de quem não nos olham.

Não àquilo que não se conclui
Para o surgimento de um novo ser.

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