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Éter meu para Bandeira e Bashkirtseff

"Uns tomam etér, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria. Tenho todos os motivos menos um de ser triste. Mas o cálculo das probalidades é uma pilhéria... Abaixo Amiel! E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff."*

Já dizia o poeta. Qual é então o motivo da minha tuberculose? Qual é então, o às vezes que me persegue, retorcendo o bem estar? A ferida que não cicatriza, as marcas da autoflagelação. O acesso ao voluntário sofrimento e horror. Se fosse um aleijado de pernas, não andaria. Maria Bashkirtseff ficou famosa por sua profunda tristeza e pelo relato fiel de sua miséria tão comovente e semelhante. Seremos todos cadáveres vivos?


Éter meu para Bandeira e Bashkirtseff

Uma estrela
Duas estrelas
Cinco estrelas
Dez estrelas
É de manhã
Ainda teimo em contar estrelas.

Um peixe
Dois peixes
Cinco peixes
Dez peixes
No aquário do restaurante de frutos do mar
Teimo que estou no Oceano.

Uma ave
Duas aves
Cinco aves
Dez aves
Faço uma oração
Aves de cozinha não voam.

Uma pílula
Duas pílulas
Cinco pílulas
Nenhuma vida
No sono que não vem
Na noite que vai e vem
No dia que insiste em não brilhar.
Uma hora
Duas horas
Cinco Horas
Dez Horas
Uma dança tão longe de me arrebatar

E de repente, uma alegria fugaz.
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*Manuel Bandeira, poema Não Sei Dançar do livro Libertinagem

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