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Domingo de Ramos

Vou embora
Sempre
Vou embora
Dói, passeia com angústia
Sofre vai
embora
com resigno comedido
Não traz o espelho
Não traz o reflexo
Vou embora
Sôfrego, acaba
Termina
Deixa pra trás
Subtraz
Comedido, retido, contido
Não tem mais
Vou me embora
Levarei de lembrança imagens
Repetições frias, inexistentes
Vou embora imagens
Não minhas, nunca serão
Vou-me embora doído
Cansado, deixado pra traz
Largarei a juventude
Largarei o descanso e o cansaço
Largarei a solidão e imensidão tardia
O não passo, a não estadia voluntária dissoluta
Levarei imagens da escuridão
Feliz
Quadro a quem não se diz
Jamais
Partirei
Egoísmo para lá
Sobras de eufemismos para cá
Tudo doença sombria
A escuridão me satisfaz
Metade de mim escondida
Numa saudade inconveniente
Daquilo que não se faz
Deixa vai, deixa pra trás
Esconde debaixo do que
Que visito no sono íntimo
Profundo
Onde reina temporária escuridão
Caem preguiçosos, como a manta cascateada
Brilha sob a luz, águas escuras ondulantes
Abraçando-me plenamente
Guarda tudo com zelo
Debaixo de cada cama ou coma, caixa ou túmulo
Debaixo de cada sílaba
Parecendo sempre fazer
Onde tudo o que está escrito
Está escrito
E que se não puder
Não se poderá não ser lido
Vou embora vai
Brincando com a lógica de frente pra trás
Negando o não da negação
Pausando em cada verso um outro não
Do que não posso negar não negando
Vou embora
Carregando o cesto de sílabas
Porteá-la-á substancialmente
As estrelas sabem quando olho
Não quanto olho
Carregando o peso do dia
Escuridão faz sombras
Luz faz sombras
Mas há quem pede...

Vou embora...
Vou embora vou
dormir vou
sonhar
com a escuridão.

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