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Ego et Circenses

Surge nessa imensidão de cordialidade mansa
Uma necessidade vinda do estômago
Arde-se em chamas, inquieta
Seja lá uma necessidade de rouquidão romântica
Mas por tudo o que há de mais sagrado
Xinga-me à minha mãe
Xinga-me à minha geração
Soca-me os punhos nos dentes até não sobrar mais dobra de língua
Do que lançar-me este pobre olhar cinza
Esta pena por cordialidade
Não deve existir de todas a maior das maldades
De que enganar por incertas bondades.

Consola-te aqui, no meu sofrimento
Nesta minha angústia solitária
Venha e deite-se sobre a minha miséria
Como nunca soube deitar-se com a sua própria
Trairá a minha desgraça consecutiva
Quando dela sentir-se seduzida

Há quem goste da verdade, mas nunca a serão!
Nunca a serão!
Aproximar-se nunca é o bastante para tê-la em si
Sê-la em si
Moldá-la ao que seja como espera desta concepção
Nunca será, nunca a serão.

Pois quem vier primeiro já esteve aqui, no chão
A verdade deita-se e desfaz-se
E corrói, e constrói, e destrói-se como quer
E mil homens passarão
Mil mulheres deixarão de ser
E dela seremos a tua vontade
Seja-me a minha esposa ou marido
Mas nunca dela teremos um beijo ou um afago ou um sexo inesquecível
Seremos dela seus escravos tortos, condescendentes
Por ela mentiremos e jogaremos o pão no chão
E cagaremos por todos os lugares
E comeremos depois
E carregaremos o pesar de um ou dois.
E nunca admitiremos não ser ou ser ou não.

Deita aqui, faz-se confortável para dizer
Palavras mudam ações.
Oh verdade, sua traiçoeira!
Estarás sempre oculta em nossas maiores cegueiras!

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