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História de uma florzinha invisível

Quem dera podia ver através do tronco d'uma árvore

Captar suas entranhas druídicas
como Deus imaginou que seria
tudo o que só podemos ponderar


no começo tudo é fofo e macio
nesse chão de terra viva
terreno forte terreno sadio

então uma florzinha imaginária
daquelas que valem a pena crer
deita ali e fica

Mas não será?

A gente pisa por cegueira
Por insabedoria dessatisfatória
E pior que uma gotinha de sangue
uma gotinha de lágrima
E quando cai no terreno novo
Abre um chão de cimento duro

Mas tem chão pra toda hora
E a florzinha ainda é nova
Respira muito depois que chora
E vai

Será?

no começo é quase tão fofo
Quase tão novo e quase tão brio
nesse chão de terra que vive
Terreno que prossegue e vigora

E uma flor madurando vai
Daquelas que querem viver
Senta ali, olhando para os lados

E a gente fala por ignorância
Por presunção ingênua indumentária
E pior que uma gotinha de lágrima
um vento no oco do peito
E quando cai no terreno novo
Treme, abre um chão de buraco novo

Mas ela se arrasta, insiste
Levanta meio em riste
Não liga se está triste, isto te faz pensar
Vai indo florzinha, vai.

Mas será...?

no começo é quase fofo
quase novo, quase com vontade de continuar
nesse chão seco, frio, trépido de não existir
Terreno que segue, insiste, existe
Bem assim...

E uma planta, pétalas à vista, caminha lentamente
Está ali, vivida, daquelas que perseveram
Fica de pé, esperando a chuva chegar

E a gente não fala mais
Por cansaçao, por tristeza receosa
Deixa lá o terreno descansar
Não joga sementes por medo de errar
E pior que um peito oco e vazio
É um terreno morto, sem nada, sem brio

E uma coisa que hora ou outra
Seja em forma de flor, seja em forma de dor
A gente nem sabe se vai existir mais.

Mas continua existindo?

Cada vez que surge uma brisa nova nessa vida imaginária...

Até um dia que não sobrar nada

Quem pudera sêssemos Deus e não se importar
Com o clamor desesperado do fiel que quer ser feliz.

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