Pular para o conteúdo principal

Reforma

A lâmpada pisca acima, são seus sinais de sobrevida
Quase não a noto, quase não percebo
Há muito ruído lá fora
Muita responsabilidade que ficou por ser cuidada
Muita louça na pia por ser lavada
Muita roupa suja por ser lavada

Na última canção do violão uma nota ficou vaga
Sobrou no ar, perdeu-se no espaço
Quase não se pode escutar o que ela soa

Talvez um branco gelo na parede para encobrir esse encardido
E depois pegar a mochila, sair por aí
Ver o mar ou as montanhas
Andar errante, pro lugar desconhecido
Ou tentar, quem sabe, preencher o espaço vazio de tudo.

Não se cabe em si tanto quanto lhe falta
A lâmpada enfim morre e só sobra escuro
Sobra tanto que se esparrama pelos braços e cabelos
E os cabelos, esses cabelos sujos, sem comportamento

Bate-se uma porta tão forte na casa ao lado
Assusto-me mais com a porta do que com os gritos
Mas tudo bem, mistura-se aos gritos da galera
A galera da rua que grita pra não ser desgraça
Esses gritos de felicidade incauta pra afastar a beleza da cisma social

Gritar é a única coisa que ainda pode-se fazer
Quando não se pode nem falar do próprio nome

Essa mania tola de existência constante
Em que estamos todos em todo lugar
Menos em si mesmo, mesmo aqui.

Não cabe em si e em lugar algum
Nem em parede branca
Por baixo, saberei, estará sempre sujo

No escuro, uma explosão!
Pow, pow pow!
Momentânea, assustadora, fisicamente impossível de ser!
Até que o teto caiu
Abriu um buraco no chão
E saiu um pedaço de nuvem!

Estávamos idiotas demais de felicidade
Pra entender o que aconteceu.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

One For the Road

Estou em dúvidas entre Uísque e Conhaque sobre qual é a minha bebida favorita. Na época da faculdade todos os amigos tinham sua bebida favorita. O Márcio dizia "Licôr de Kiwi é o canal. Essa bebida é muito boa!", mas eu só não vomitei por educação. A Ana Paula odiava cerveja "porque dá barriga", e a Heloísa provocava dizendo que o que dá barriga é sair com todo mundo da turma. Ana Paula era uma cínica, e dizia que não entendia nunca esse comentário, mas entendia que cerveja não era com ela. Uísque tem uma variação de teor alcóolico que vai de 35% a 45%, isso sem contar o glamour pelo preço da garrafa. Quanto mais você está na camada da pobreza, mais facilmente você se enobrece e se enche de inimigos. Conhaque é a bebida de quem já chegou no fim da linha, mas há uma graça um tanto universitária na escolha da cachaça artesanal. Tivemos um amigo chamado Amendóim que morreu com menos de 30 anos por causa de bebida. Ele começou com a cerveja e terminou com a cachaça, mas...

Resignação

Nunca te abriram uma porta Só te trouxeram este tumor Quando pensava que colher flores Era um gesto válido de amor. Mas olha só pro que colheu Olha bem pro que tem em tuas mãos O que tolheu a vida inteira, já morreu E o solo onde pisa não é ramo, é chão Trouxeram-te um drink Está aí em cima Trouxeram-te até A tentativa tola de um verso fazer rima. Sim, te elogiaram os sapatos Ou até mesmo uma certa eloquência Mas é só, nada mais Só tem o chão que pisa com frequência. E agora que nada tem a entregar Senão a menção daquilo que te ilude Aquilo que o desejo leva na lombar Quando a cabeça deita e o descanso alude Agora, dizem, pare com as palavras Abandona toda tua vontade Desta rua segura que te lavra Larga para trás esta cidade. Este largo, que o perdido olhar Ante a tempestade sustenta e esfria Esta ilha que deixa a barca atracar Que traz no pensamento a fantasia. Ainda que orne a casa de ramagem E ainda que nutra na dor algum riso O que tem fora é luz que queima e que arde O que tem em ...

A Casa que nos Resta

Há um lugar Que quero sempre visitar. Que clama por mim Ou quem o clama sou eu? Um pedaço de chão Recôndito, recluso, difícil de encontrar. Esse lugar, simples lugar. Um pedaço de terra Um arbusto aqui, outro ali Salpicada como tempero E as flores que você plantou Para você colher. Esse lugar que se confunde Com o conforto cálido do ar E a maciez lívida do toque E o aroma doce do hálito Um lugar que afaga a inquietude Que transforma o solo que míngua Em um caudaloso açude. Há, que pareça sonho, um lugar assim Onde as vozes soam Como o primeiro pranto da aurora E as teias de luz que se desenham Para embalar o renascer. E lá chegando, deitaremos na grama Não sentiremos vergonha Nem da lágrima Nem da mágoa Nem da vontade de sorrir. Largaremos para trás O fardo venenoso da memória E faremos do presente momento Uma nova história. Lá, no lugar embrionário Teremos a plena certeza De que repousamos no olhar A nossa sincera natureza. Há algo assim, de Belo De extraordinário Há, no infinito dos ...