Pular para o conteúdo principal

Bucolismo

Com tua carroça cheia dos restos da cidade

O catador para diante da margem do rio

É um rio largo, escuro, mal cheiroso

Ele observa o reflexo nas águas, suspira e vai embora:

- Esse rio é tipo um abismo.


Todo dia passa ali, com tua carroça colorida de catador.

A engenharia é uma piada tecnicista

Tem uma TV quebrada

Num celular, uma antena de carro, só por ironia

Um CD de um grupo de Axé que já acabou

- o resto de uma alegria do passado -

Uma boneca vestida com roupa de mecânico

Restos de móveis

Restos de roupas

Restos de memórias fragmentadas.


Ele mira o reflexo nas águas, suspira, e vai embora:

- Esse rio aí, é um imenso abismo.

Todo dia é a mesma coisa.


Do outro lado da margem do mitológico rio: 

A vista bucólica de um jardim bem cuidado

Casas em seu devido lugar

Pessoas em seus devidos lugares

É tudo como se fosse um sonho.


Ele olha as águas, se vê no fundo distorcido, suspira, pega sua carroça e vai embora

- Um dia atravesso o rio.

O rio é quase sem fundo e quase sem vida.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

One For the Road

Estou em dúvidas entre Uísque e Conhaque sobre qual é a minha bebida favorita. Na época da faculdade todos os amigos tinham sua bebida favorita. O Márcio dizia "Licôr de Kiwi é o canal. Essa bebida é muito boa!", mas eu só não vomitei por educação. A Ana Paula odiava cerveja "porque dá barriga", e a Heloísa provocava dizendo que o que dá barriga é sair com todo mundo da turma. Ana Paula era uma cínica, e dizia que não entendia nunca esse comentário, mas entendia que cerveja não era com ela. Uísque tem uma variação de teor alcóolico que vai de 35% a 45%, isso sem contar o glamour pelo preço da garrafa. Quanto mais você está na camada da pobreza, mais facilmente você se enobrece e se enche de inimigos. Conhaque é a bebida de quem já chegou no fim da linha, mas há uma graça um tanto universitária na escolha da cachaça artesanal. Tivemos um amigo chamado Amendóim que morreu com menos de 30 anos por causa de bebida. Ele começou com a cerveja e terminou com a cachaça, mas...

Saudade de Mim

Não me deixe sumir Nas águas sombrias Das memórias angustiadas Estou aqui Com meu corpo e minha alma Seu corpo e sua alma E seu coração em deságua. No abismo traiçoeiro e soturno Não me deixe sumir No labirinto do exílio noturno. Me ame Enquanto ainda não enlouqueci Por enquanto lembro Terei também recordação Na minha tenra infância Do primeiro toque de amor na minha mão Me ame Para que eu eu volte para casa Para que não me esqueça de mim Não me deixe sumir assim.

Salila-Laya सलिल लय

O silvo sorrateiro e silente Sacia o tufo alvo granuloso Ela chega, tímida, insegura Marulha o rumor curvo, sinuoso Vem pra me chamar, mas eu já estou aqui. Marulha para frente Marulha para trás Marulha em uma valsa Que antes que eu perceba Dissolve-se em mim em sal e paz. O pouso delicado Invade-me aos poucos Ou sou eu que o invado Já não sei mais dizer quem foi tocado. O beijo mar suave da manhã Acalma a onda tão revolta enfim E o branco mundo vasto que respira Aprende a viver e respirar sem mim. Cai, uma a uma, a casca que nos veste E leva para longe, ao limbo da memória Esquece quem nós somos Esquece, até mesmo nossa história. Só sobra assim Esse mar suave Silente e sutil Que silvo e sorrateiro Sobe em meus pés, eu vejo E sorve, delicado,  O derradeiro beijo.