Pular para o conteúdo principal

A Balança das Moedas de Ouro ou o Teatro de Ruínas

"La giustizia è cieca e stupida. Con le mani arcuate verso l’alto, aspetta che il peso dell’oro inclini la bilancia."

A justiça é cega e estúpida. Com as mãos arqueadas para cima, ela espera que o peso do ouro incline a balança.

=======================================================================

Não me venham falar de justiça. Isso é uma farsa encenada por homens acuados pela beleza do caos da natureza. Patética, tola tentativa, de impor simetria ao universo com suas réguas de madeira e pastas de cartório. Pintam a balança, cobrem os olhos da estátua com seda ou cetim, e chamam de deusa. E o bronze que reflete os que a contemplam, com suas togas e seus malhetes cravados em jóias, mostram o reflexo tortuoso da selvageria da realidade.

Ela é cega, dizem, a nobreza de enxergar um horizonte achatado. Mas já existe a medicina e a ciência avançada para curar a cegueira dependendo da fortuna investida. Cega, não por pureza, só conveniência mesmo. Mais do que cega, é estúpida e ambiciosa, com suas mãos estendidas, as palmas viradas para cima, arqueadas, esperando pela verdade do peso da moeda. Só com o peso do ouro a balança pende e a justiça está feita. 

Conhece a história de quando os homens mais poderosos do mundo decidiram erguer um monumento a si mesmos e escolheram o deserto da opulência? As árvores mais belas e os corpos de água mais libidinosos despejavam com abundância, e ali ergueram um altíssimo forte, um castelo de mármore, ouro e prata, todo cravejado em diamantes e rubis. Um monumento de compensação ao fracasso, o enorme reflexo da pequenez. E então, quando a última pedra é colocada e a inauguração é marcada, vem ela, a maior verdade, a minha amada natureza, e sacode o chão, parecendo um animal indomável tentando coçar corpo afora uma pulga inconveniente, e todo o castelo de mármore vira poeira. Os homens entreolham-se acusando uns aos outros pelo fracasso do projeto. Eu não consigo senão rir. Eu não inventei essa história apenas para provar meu ponto.

Natureza, não reconhece nossos códigos, porque ruge e rasga, ela se deleita, não tem relatórios e nem seus favoritos. Ela vê uma criança desesperada implorando por um prato de comida, e a esmaga com a mesma suavidade com que banha suas costas marinhas. Já ouviram um raio pedir desculpas por cair, ou um lobo sentir remorso por dilacerar o pescoço de um cordeiro que estava ridiculamente parado como se esperasse pela morte?

O que tem de honesto nesse teatro jurídico? Com roteiro escrito em bastidores, um diretor oculto conduzindo a cena. Mas ah, deram ganho de causa para o homem menor um dia desses. Pura performance, puro convencimento de ainda tenta nos dizer "eu vejo vocês, de vez em quando, só que é difícil distingui-los em tantos trapos da mesma cor. A tonalidade do ouro é mais vistosa, portanto..."

Essa justiça divina é na verdade doméstica. Uma coleira de couro no pescoço humano, construída pelo próprio homem, da pele do próprio homem, para manter os mesmos homens em seus cercados feitos de ossos de outros homens. Da cancela para o lado de lá, criam as leis traçando os trilhos de um trem que vai andar apenas em linha reta. O maquinista na frente, os conduzidos, atrás, crentes.

A beleza do mundo está justamente no fato de que ele não se importa com estas réguas, com o mármore, com as cercas e nem com nossos trilhos de trem. Não se importa nem com os nossos ossos triturados que lhe serve de alimento ao solo. Talvez pense "que lástima, não tem outra coisa melhor para saciar minha fome? Deixe para as hienas com seus dentes podres!" Onde cai o sangue nasce a primavera. O choro da viúva é acompanhado pelo gemido de uma jovem no auge da sua luxúria. Durante o velório de um filho assassinado está sendo celebrado, em outra parte do mundo, o nascimento do novo ditador da nossa era. Essa crueldade repleta de dignidade não se descreve em regras de incisos ou artigos. Caput!

Seus tribunais não são torres de justiça, são uma prisão. Suas sentenças não são pela glória da ética ou da moral, senão pela glória dos que brindam em blends, o estalido dos copos que tenta ocultar o grito dos que foram condenados com uma pena mais pesada do que o crime cometido.

A única balança que realmente pesa com igualdade é a do abismo que fingimos não estar.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

One For the Road

Estou em dúvidas entre Uísque e Conhaque sobre qual é a minha bebida favorita. Na época da faculdade todos os amigos tinham sua bebida favorita. O Márcio dizia "Licôr de Kiwi é o canal. Essa bebida é muito boa!", mas eu só não vomitei por educação. A Ana Paula odiava cerveja "porque dá barriga", e a Heloísa provocava dizendo que o que dá barriga é sair com todo mundo da turma. Ana Paula era uma cínica, e dizia que não entendia nunca esse comentário, mas entendia que cerveja não era com ela. Uísque tem uma variação de teor alcóolico que vai de 35% a 45%, isso sem contar o glamour pelo preço da garrafa. Quanto mais você está na camada da pobreza, mais facilmente você se enobrece e se enche de inimigos. Conhaque é a bebida de quem já chegou no fim da linha, mas há uma graça um tanto universitária na escolha da cachaça artesanal. Tivemos um amigo chamado Amendóim que morreu com menos de 30 anos por causa de bebida. Ele começou com a cerveja e terminou com a cachaça, mas...

Resignação

Nunca te abriram uma porta Só te trouxeram este tumor Quando pensava que colher flores Era um gesto válido de amor. Mas olha só pro que colheu Olha bem pro que tem em tuas mãos O que tolheu a vida inteira, já morreu E o solo onde pisa não é ramo, é chão Trouxeram-te um drink Está aí em cima Trouxeram-te até A tentativa tola de um verso fazer rima. Sim, te elogiaram os sapatos Ou até mesmo uma certa eloquência Mas é só, nada mais Só tem o chão que pisa com frequência. E agora que nada tem a entregar Senão a menção daquilo que te ilude Aquilo que o desejo leva na lombar Quando a cabeça deita e o descanso alude Agora, dizem, pare com as palavras Abandona toda tua vontade Desta rua segura que te lavra Larga para trás esta cidade. Este largo, que o perdido olhar Ante a tempestade sustenta e esfria Esta ilha que deixa a barca atracar Que traz no pensamento a fantasia. Ainda que orne a casa de ramagem E ainda que nutra na dor algum riso O que tem fora é luz que queima e que arde O que tem em ...

A Casa que nos Resta

Há um lugar Que quero sempre visitar. Que clama por mim Ou quem o clama sou eu? Um pedaço de chão Recôndito, recluso, difícil de encontrar. Esse lugar, simples lugar. Um pedaço de terra Um arbusto aqui, outro ali Salpicada como tempero E as flores que você plantou Para você colher. Esse lugar que se confunde Com o conforto cálido do ar E a maciez lívida do toque E o aroma doce do hálito Um lugar que afaga a inquietude Que transforma o solo que míngua Em um caudaloso açude. Há, que pareça sonho, um lugar assim Onde as vozes soam Como o primeiro pranto da aurora E as teias de luz que se desenham Para embalar o renascer. E lá chegando, deitaremos na grama Não sentiremos vergonha Nem da lágrima Nem da mágoa Nem da vontade de sorrir. Largaremos para trás O fardo venenoso da memória E faremos do presente momento Uma nova história. Lá, no lugar embrionário Teremos a plena certeza De que repousamos no olhar A nossa sincera natureza. Há algo assim, de Belo De extraordinário Há, no infinito dos ...