Recentemente, o Planet Hemp fez, supostamente, o seu último show, no dia 13 de dezembro de 2025, para ser mais exato. A cultura musical agora trata a turnê de despedida como seu mais novo produto. Depois da saturação da nostalgia, tornou-se necessária a fabricação de uma nova moeda comercial.
O que aconteceu com simplesmente dizer “acabou”? Há algo de profundamente autoindulgente na ideia de que é necessário um grande último show antes de baixar a cortina para sempre. A justificativa é sempre a mesma, o público merece, o público quer. Mas vejamos bem. Se considerarmos que o Planet Hemp já fazia shows pequenos, em circuitos cada vez mais de nicho, e que não era mais a banda de hits dos anos 90, por que alguém sentiria falta? Ao se mencionar que a banda faria seu último show, a reação mais comum era ouvir pessoas dizendo que não faziam ideia de que o Planet Hemp ainda existia, ou que achavam que a banda tinha acabado quando Marcelo D2 saiu.
Em outra esfera, temos o Scorpions, há quase dez anos em turnê de despedida, inclusive lançando álbuns. Temos também o Sepultura, encerrado por decisão solitária de Andreas Kisser, que não deseja mais continuar com a banda, sendo inclusive condescendente com a decisão de outros membros de seguirem adiante antes que o barco afunde de vez. Por anos, fiquei do lado de Andreas na briga com Max, mas, após suas declarações recentes sobre a saída de Eloy Casagrande, classificando-a como desonrosa, começo a entender por que Max saiu nos anos 90, seguido por Iggor uma década depois.
O capitalismo é realmente fascinante enquanto sistema capaz de extrair valor monetário de absolutamente tudo. Não existem exceções. Trata-se de um sistema profundamente amoral, e é exatamente isso que lhe garante vantagem sobre qualquer outro que tentou confrontá-lo. Talvez a solução esteja aí. Seu maior antagonista, o comunismo, especialmente no Brasil, se cerca de valores cristianizados de piedade e sacrifício. O capitalismo olha para esses valores e os transforma em mercadoria. Quem duvida, que espere perder um ente querido. Você não pode simplesmente morrer, até para isso é preciso pagar. Brilhante, não é?
Tiremos então esse véu de nobreza que acoberta suas verdadeiras intenções. Não, o show de despedida não é pelo fã. É a garantia de uma aposentadoria confortável antes de juntar os panos e ir embora. O fã, por sua vez, se vê compelido e manipulado pelo sentimento de que esta é a última chance de viver algo que adiou por anos, projetando o auge do artista numa fase em que os músicos mal conseguem se manter de pé.
Mas o capitalismo não se contenta apenas com a despedida. Ele também monetiza a ideia de retorno ao lar. Desde que Portnoy voltou ao Dream Theater, não houve um único show no Brasil que custasse menos de mil reais. Estamos falando de uma banda que conseguiu esvaziar o Rock in Rio após a apresentação do Iron Maiden. O mesmo ocorre com o AC/DC, com o perdão do etarismo, hoje apenas um caco do que já foi, se é que já foi algo um dia. A cereja do bolo foi a cena triste de Ozzy Osbourne incapaz de alcançar uma única nota em seu derradeiro show, duas semanas antes de morrer. Aquilo não era sobre despedida, mas sobre a imagem construída ao longo de décadas, a do homem que não se rende e não se entrega. Testemunhar essa imagem custa algumas centenas de libras. Há quem diga que ele estava ali porque quis, pela música, pelo público. O que me impede de acreditar nisso é a insistência da família em não permitir que Ozzy morresse em paz. Agora virá um documentário sobre seus últimos momentos. Houve camiseta com ofensas a Roger Waters, houve a necessidade narcísica da família Osbourne de aparecer às custas do talento do patriarca, ainda que os demais não tenham absolutamente nenhum talento além de fabricar factóides vazios.
Consigo respeitar os artistas que entenderam que o momento passou. Casos como John Deacon, Ana Paula Arósio, Sean Connery, Victor Fasano. Pessoas que compreendem que o centro do fazer artístico é a obra, não a perpetuação da própria imagem.
No fim das contas, não se trata de música, de legado ou de amor à arte. Trata-se de espremer até a última gota de valor antes que o cadáver esfrie. O capitalismo não pede licença, não faz luto e não respeita o direito de simplesmente desaparecer. Ele transforma despedida em espetáculo, decadência em evento premium e morte em conteúdo sob demanda. Se ainda há pulso, há ingresso. Se ainda há nome, há camiseta.
A turnê de despedida é a versão mais honesta desse pacto cínico, o artista finge que ainda é mito, o público finge que ainda acredita, e o sistema lucra com a encenação melancólica. Não é celebração, é leilão do que restou. E enquanto houver alguém disposto a pagar para testemunhar a ruína travestida de glória, o show continuará. Sempre haverá mais um “último”. E sempre haverá quem pague, até para defender.
Porque, no capitalismo, acabar de verdade não dá dinheiro.
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