Estou em dúvidas entre Uísque e Conhaque sobre qual é a minha bebida favorita. Na época da faculdade todos os amigos tinham sua bebida favorita. O Márcio dizia "Licôr de Kiwi é o canal. Essa bebida é muito boa!", mas eu só não vomitei por educação. A Ana Paula odiava cerveja "porque dá barriga", e a Heloísa provocava dizendo que o que dá barriga é sair com todo mundo da turma. Ana Paula era uma cínica, e dizia que não entendia nunca esse comentário, mas entendia que cerveja não era com ela.
Uísque tem uma variação de teor alcóolico que vai de 35% a 45%, isso sem contar o glamour pelo preço da garrafa. Quanto mais você está na camada da pobreza, mais facilmente você se enobrece e se enche de inimigos. Conhaque é a bebida de quem já chegou no fim da linha, mas há uma graça um tanto universitária na escolha da cachaça artesanal. Tivemos um amigo chamado Amendóim que morreu com menos de 30 anos por causa de bebida. Ele começou com a cerveja e terminou com a cachaça, mas não foi uma morte tão impactante para moralizar o hábito. No dia do funeral, todos fomos ao bar e eu lembro de ter pedido um Gin. A coisa mais amarga que já havia colocado na minha boca em toda a minha, desde a Angela.
Angela odiava bebida, ela queria estudar para fazer medicicina, e dizia que um dia seria uma moradora da Cidade Jardins. Vou ganhar três paus por cirurgia e viajar pro exterior todo semestre. O que? Você acha que médico se importa com saúde? Médico mesmo quer ganhar uns três pau por cirurgia e viajar pro exterior todo semestre. Ela ia esquecendo da concordância com a mesma velocidade que se indignava que só conseguia passar no vestibular para biomedicina. Dava longos sermões de que já havia indícios de que a bebida alcóolica causava câncer, e que não gostava de nada que lhe adulterasse o seu estado mental. Angela amava reality show e séries estrangeiras. Qual bebida era capaz de curar dor de cabeça?
No último dia de aula da faculdade fomos todos a um bar, e uma garota de sobrenome Mirckievicz pediu Tequila, o Hiromi, que era o melhor aluno da sala, pediu Vodca, porque não aguentava mais a pressão dos pais. Mas o Ortega tinha que pedir Saquê. O Ortega era excêntrico demais, por isso quase ninguém conversava com ele, e pouco acreditavam quando diziam que ele tinha uma namorada estrangeira. Toda menina queria saber se o sobrenome Ortega correspondia com os boatos do banheiro. Ortega era um rapaz de pouca palavra e muita ação. Só as meninas gostavam dele, mas ele só era capaz de gostar de si mesmo depois de gritar duas vezes "Kanpai!".
Minha bebida sempre foi o Martini, que eu tomava escondido em casa. Tudo porque eu ainda andava de ônibus e usava o mesmo par de sapatos durante mais de dois anos. A vida é curta demais pra que a gente fique por aí escolhendo sapatos e roupas, era assim que eu me saía dos comentários. Na vida pública, com os meus sapatos gastos, eu bebia cerveja mesmo. Cerveja e caipirinha, embora não soubesse sambar. Tinha uma moça que dava gosto de olhar andando, e que sambava igual uma demônia, e no fim do samba escolhia quem a acompanhava pra casa, e ainda era capaz de comprar sozinha uma garrafa inteira de Jack Daniels, sem dar a menor satisfação a ninguém. Eu queria poder saber o que acontecia na casa dessa morena depois de ter bebido duas doses de Jack Daniels com ela. Em casa não, ela veria que eu bebo Martini às escondidas. Não faz diferença nenhuma porque eu nunca fui escolhido.
Minha melhor amiga cresceu e aprendeu com a vida a odiar o próprio pai, por isso toda semana secava uma garrafa de vodca. Era impossível de acompanhar, porque ela era uma doida desvairada que quase me levou à loucura. Toda semana ela berrava o meu nome no quarto abafado e fedendo a vodca e cigarro. Eu tinha que que me desfazer de uma peça de roupas por semana, não que eu estivesse reclamando. Ao fim do mês, havia várias roupas minhas e de outros, descartadas, fedendo a cigarro, e isso me dava um ciúmes infernal. Foi mais ou menos nessa época que o Martini surgiu, comigo tentando me sobressair, porque ela era afeita a recitar poesias de cabeça, a cantar músicas em espanhol, francês e alemão, e gostava de falar da Frida Kahlo. Ela sabia mais da vida da Frida Kahlo do que sabia do que era o amor de um pai. Então eu precisava do Martini. Era o Martini Bianco ou o Martini Rosé. Nenhuma das duas me davam a habilidade dedutiva para resolver aquele mistério de como eu pude me apaixonar tanto por ela, mesmo sabendo que ela ia embora da minha vida a qualquer momento. Como ela pode ter sido louca, mas tão ou mais louca, deixando eu me apaixonar tanto por ela?
O casamento foi selado no medo da solidão, e foi como morar na estação de trem do interior, onde é proibido beber. A gente segue as leis enquanto está civilizado. Foi quando decidi que estava na hora de abandonar o Martini, e amadurecer. Vou de Conhaque mesmo. Quero parecer um pouco aqueles jovens do passado que morriam de medo de viver, mas viviam mesmo assim, com a maior teimosia do mundo.
Eu me declaro culpado, com gelo e bebida no copo, de cometer amores imorais, e foram muitos. Voltemos à louca desvairada, por quem me apaixonei perdidamente, e que partiu daqui e meu coração, apesar de nunca ter sido capaz de odiá-la. Como a amei, e como amei a liberdade que eu vivi com ela. Foi a porta de saída de um amor ficcional, de onde nada se viu senão apenas o que eu quis mostrar através do meu próprio espelho. Lembro que desse amor, aconteceu uma briga estúpida pela linha de ônibus que eu deveria escolher para ir para casa, e ela queria outra. E da discordância do ônibus, passamos a falar mal dos nossos pais, e até mesmo do futuro. A louca desvairada, com um único olhar, desafiou a minha covardia de viver a vida de verdade, e eu fui. Eu vivia embriagado nos lábios poéticos e nos silenciosos também. E ela tinha os mais lindos lábios que, sem palavra alguma, eu me via diante da verdadeira porta da vida, e talvez por esse romantismo ébrio que ela decidiu ir embora. Mas foi corajosa enquanto nos amamos.
Foi ela quem espalhou o boato do Ortega, e sua suspeita de que intimidava a todos os homens dentro do banheiro. Uma simples espiadela e pronto, todos saíam dali com a necessidade de compensação. Não foi bem um boato, ela dizia, não é boato quando, eu confirmei com olhos, mãos e lábios, todos eles. São realmente lindos lábios da onde a poesia é silenciosa e quente. E depois de tanto calor, servia-nos uma vodca com gelo e um pouco de refrigerante de cola para ser ousada.
Com o gelo e bebida no copo, acuso que não é possível saber se me quiseram ou me venderam, e quando a embriaguez é mais forte do que a própria realidade, ela vira uma realidade ainda mais acomodável ao coração. Não lembro de forma alguma se já fui capaz de amar loucamente como amei a louca da minha melhor amiga. Ou estive apaixonado, ou estive bêbado o tempo todo. Se um ou se outro, eu chorava todo sempre, e depois fingia estar sóbrio. Não existe nada mais obceno do que a honestidade em tempos de cinismo narcísico. Ou é filosofia, ou é um pedido de mais uma dose.
A louca tirou de mim mais confissões do que o próprio pároco no funeral do Amendóim. Mas só decidiu ir embora quando ela se viu em meus olhos, e disse "essa não sou eu". Eu jurei a ela que sim, a mulher dos meus olhos era a mesma mulher, mas ela só repetia, chega de você, chega de vodca, e chega de cigarros, minha casa já está um amontoado de roupas velhas e descartadas. Pegue todas estas roupas e leve-as daqui. Eu te amo, mas a mulher que você diz que ama não sou eu. Eu ajoelhei e jurei em confissão, mas ela estava convicta. Quando fiquei sóbrio, concordei que estava realmente certa de tudo. Amei a mulher que eu quis enquanto estávamos incedeando a cama, e isso a magoou profundamente. Da última vez que ouvi falar, tinha feito as pazes com o pai, que disse ter sido tudo um mal entendido.
A necessidade de alcançar a sobriedade diante da tragédia que é ser amado e mesmo assim ser deixado para trás, viver em vão e entender que o restante de nós apenas segue. De todos os que ficaram sóbrios, eu sou o único que ainda se embriaga.
Comentários