1
Os sapatos não cabem mais. Estranho. Da última vez que calçou, cabiam. Daniel pensou se ainda era possível crescer e aumentar de tamanho depois dos trinta e oito anos de idade. No lado oposto da sala, sentado no outro sofá, Israel, que estava distraído com uma revista velha, respondeu à pergunta do amigo:
“Não, não é possível. Só se você engordar ou emagrecer. Talvez o sapato tenha encolhido.”
“É uma pena. Eu gosto destes sapatos.”
“Mas você ia ter que se livrar deles mesmo assim. Essa é a regra.”
“Eu sei, mas foi presente dela. Uma pena mesmo que não cabem mais.”
Israel apontou para o chão:
“Caixa, agora.”
Daniel respirou fundo e jogou os sapatos dentro. Ali estavam as coisas que lhe lembravam dela, e causavam uma saudade forte e sufocante a ponto de até mesmo ser difícil de andar pela casa. Aconselharam esconder, ou tirar do campo de visão por enquanto. Ajudaria no processo de luto.
Curioso, Israel ergueu uma caneca de vidro em formato de bota, com um desenho de folhas de cevada enfeitando as cores da bandeira alemã.
“E isso aqui? Lembra alguma coisa?”
Lembra sim, talvez o mês de maio ou junho do ano anterior. Compraram uma caneca do festival Oktoberfest. Tinham ido comer Bratwurst e beber cerveja artesanal. A primeira vez que ele foi num evento deste tipo foi com ela e foi memorável, virando uma tradição do casal. No entanto, quando foram no ano anterior, eles acidentalmente encontraram com o ex-namorado dela, Rafael, junto com sua esposa. Ela não precisou apresentá-lo pra que soubesse quem era. No início, quando Daniel e ela começaram a namorar, o “Rafa”, que era como ela ainda o chamava, era uma unidade de medida, a régua de comparação, para o bem e para o mal. Tê-lo visto casado iniciou uma competição silenciosa que resultou em uma briga.
“Não, isso não, pode deixar aí em cima.”
“Então sim.”
Israel jogou a caneca na caixa e houve um estalo seco de vidro. Não viram se quebrou, mas já fazia parte do descarte. Observou Daniel com as mãos na cintura, uma marca se formando entre os olhos, fixos nos objetos. Viu o amigo abrindo e fechando as mesmas gavetas várias vezes.
“Você tirou e guardou esse álbum de fotos três vezes já. Não está se ajudando.”
“Foi ela quem fez essa capa. Tem estes relevos aqui, que você não para de tocar quando está olhando as fotos. Eu já te mostrei?”
Daniel deixou o corpo cair no sofá e folheou as páginas do álbum. Cada fotografia empurrava uma violenta tempestade emocional labiríntica.
“Isso vai demorar muito, você não precisa ficar.”
Israel se aproximou, tirou o álbum das mãos dele sem pedir licença e jogou na caixa. Daniel não impediu.
“Isso aqui era a última coisa?”
“Acho que sim.”
“Vamos ver então.”
Agachou e enfiou a mão dentro da caixa. Foi listando os objetos em voz alta: várias canecas, livros, cartas e bilhetes, bibelôs, canetas, lápis, jaquetas, um monte de CDs, quem ainda tem CDs nos tempos de hoje? Miniaturas de Natal, um casal de bonecos de pano azul e rosa. Dois pares de sapatos.
“O que diabos é isso?”
Ergueu um emaranhado de lã branca, gasta e queimada.
“Um floco de neve.”
“Oi?”
“Ela estava aprendendo a tricotar, e me deu isso dizendo que era um floco de neve. Eu chamava ela assim, porque era branca como um floco de neve.”
“Está queimado.”
“Foi uma briga. E ela meio que quebrou a minha casa inteira nesse dia.”
“Caramba, aquilo ali então?” Israel apontou para uma rachadura da porta. “O que você fez?”
“Não fui eu. Eu saí pra visitar meus pais e esqueci o computador desbloqueado.”
“Ai meu Deus.”
“E ela leu uma conversa antiga de uma moça que estava me procurando e dizendo que queria sair comigo de novo.”
“E você foi.”
“Claro que não, cara. Era uma maluca tentando descontar raiva no namorado.”
Israel brincou com a lã nas mãos e soltou um chiado com a boca:
“Realmente, tem gente que não pode ver um problema e já quer se envolver. Ok. Um floco de neve de lã e um álbum de fotos. Então está tudo aqui. Está pronto?”
“Espera. Tem mais uma coisa.”
Levantou e foi até a mesa cor de chocolate ao lado da porta de entrada. Sob uma pilha de livros havia um porta-retratos de moldura branca, com uma fotografia que ele tirara dela. Daniel contemplava, ela sentada sobre uma pedra, e um rio corria atrás. Usava uma blusa verde e um short preto curto. O cabelo preso atrás da orelha, e um sorriso incompatível com os olhos. Segurava uma mão na outra, com os dedos entrelaçados sem firmeza. Ela olhava para a lente. Pela foto, olhava agora diretamente nos olhos.
“Essa é minha foto favorita dela. Foi o dia que começamos a namorar.”
“Certo. Agora vamos comigo pra você destravar o quarto dos fundos. Você lembra a senha?”
“Sim.”
Daniel tirou o celular do bolso e conferiu a hora. A senha era a data de aniversário dela.
Moraram juntos nesta casa fazia dois anos. Foi o mais perto que conseguiu chegar de serem casados. Trabalhava como tradutor pra uma empresa de games, mas estava migrando para a área de tecnologia. Desde o avanço da inteligência artificial, repetia que estava condenado, que precisava mudar de profissão. Repetia isso para si, para ela, para os amigos, até cansar. Provavelmente cansou.
No quintal havia um pequeno cômodo que usavam para guardar as coisas que não tinham mais espaço na casa, mas que ainda tinham algum valor. Colocaram uma trava biométrica quando, depois de um passeio noturno, descobriram que a porta foi aberta. Não conseguiram confirmar se algo estava faltando, mas foi o suficiente para despertar a insegurança. Daniel colocou o dedo no visor, fez a leitura biométrica e digitou a senha e a escotilha se abriu. Israel entrou primeiro. Daniel ergueu a caixa com cuidado. O fundo quase cedeu mais de uma vez. Ambos concordaram que tinha sido uma péssima ideia guardar tudo em papelão.
Quando Israel saiu, pediu para Daniel abrir a configuração de modificação de senha e digitou uma nova.
“Agora não há risco algum de você vir aqui tentar pegar qualquer coisa. Você apagou as fotos do celular?”
“Sim.”
“E eu posso confiar que você não deixou salvo em nenhuma nuvem?”
“Bem, você quer uma bebida, agora?” “Eu vou tomar uma dose. Tem whisky, conhaque, tem cerveja na geladeira se você quiser.”
“Você não disse que era dia de semana? Tudo bem. Eu já entendi. Eu só estou preocupado com você.”
“Eu vou ficar bem. Eu estou bem, na verdade.”
“Amanhã, se você não aparecer no trabalho, eu mesmo venho aqui te puxar da cama pelos pés.”
“Fica tranquilo porque eu vou chegar primeiro que você, como sempre.”
Acompanhou Israel até a porta, mas antes de ir, ele se virou:
“Não precisa eliminar totalmente da sua vida, entende? Isso é temporário. A gente sabe o que ela significou pra você.”
Daniel ouvia sem responder, limpando com o dedo indicador um resto de poeira na moldura do quadro perto da porta. Era um quadro de uma paisagem de pôr do sol, em estilo impressionista. Havia duas pessoas em um barco, e a composição remetia a um casal. Toda memória de felicidade era um borrão como as pinceladas apressadas e precisas daquele quadro.
“A gente se vê.” deu um toque no ombro de Israel. Despediram-se e Daniel voltou para a sala para se servir de uma dose de uísque. Sentado no sofá, deu o comanto para ligar a TV, mas não assistia de verdade. Devaneava e associava cada imagem a uma lembrança dela. Adormeceu no sofá.
2
O despertador tocou vinte minutos depois de Daniel já estar de pé, banho tomado, vestido e bebericando um café recém-passado. O cheiro era o mesmo. O gosto também. A cozinha, no entanto, parecia um pouco mais ampla. Sentado diante do copo térmico, ainda esperava ouvir passos no corredor, o perfume amadeirado que costumava anteceder a voz dela, e o pedido de sempre. Um café forte, sem açúcar, porque ela não conseguia comer assim que acordava.
“Que loucura.” sacudiu a cabeça para afastar o delírio.
Bebeu o último gole de café andando da sala enquanto procurava a carteira com os documentos e a chave e casa. Não estavam onde costumavam ficar. Voltou ao quarto. Abriu as gavetas mais de uma vez. Conferiu os bolsos das calças e das jaquetas. Olhou a mesa e os balcões da cozinha. Parou diante da mesa cor de chocolate, e desarrumou a pilha de livros. Foi então que percebeu que a fotografia na moldura branca continuava ali. Ligou para Israel impulsivamente.
“Eu vou precisar da senha da porta.”
“Bom dia pra você também. E boa tentativa, cara. Esquece.”
“Esquecemos de guardar a foto.”
“Não, não esquecemos. Eu mesmo coloquei na caixa.”
“Você tem certeza? Porque eu estou com ela nas minhas mãos agora mesmo.”
“Daniel, você estava olhando eu digitar a senha?”
“Não, cara. Eu acabei de acordar e de tomar café. Só me fala a senha. Ou vem aqui mais tarde.”
O dia no trabalho era repetitivo. Daniel passou o crachá três vezes até a catraca liberar a entrada. Ajustava o relógio e sempre sincronizava com o computador. O estagiário novo ainda errava o seu nome. Pedia os relatórios para os tradutores da sua equipe. As telas se sucederam. Campos preenchidos. Textos revisados. Mensagens automáticas. Executava as tarefas sem exigir atenção. A cabeça só pensava nela.
Depois do expediente, Daniel e Israel voltaram juntos para a casa. Entregou a foto com a moldura para o amigo, que abriu a porta com a senha nova e a guardou na caixa, junto com as outras coisas.
“Você é um bom amigo, Israel.”
“Sabe que eu também tenho uma vida, não é mesmo?”
Daniel o convidou para outro drink, mas Israel recusou por causa do trabalho no dia seguinte, então bebeu sozinho, de novo, adormecendo no sofá.
Acordou sem se lembrar como foi para a cama. A garrafa de uísque pela metade respondeu por ele. Olhou-se no espelho e reparou um círculo escuro ao redor dos olhos. Os feixes de luz por entre as cortinas lhe provocavam. Lamentava não ter o mesmo ânimo repetitivo da claridade matinal. Resolveu tomar um banho.
A água quente descia pelo corpo e removia, aos poucos, o que endurecia por dentro. As mãos demoraram a recuperar a sensação. Sentia o sangue correr com lentidão, e a vida ao seu redor passava em ritmo lento, lânguido, quase macio. O tempo se dobrava, flexível como borracha, mas ao mesmo tempo, não esperava por ele. Invejava as pessoas que simplesmente caminhavam em direção aos seus destinos, presumindo que não tinham o peso da saudade que lhe pregava no chão. O gosto do café muda. Muda também o gosto do pão com manteiga e das frutas. É um gosto sem sabor definido. Algo próximo da saliva amarga, corrosiva, que queima o estômago. Um gosto que se impõe antes de qualquer outro. Seguiu para mais um dia de trabalho.
3
No escritório, as pessoas só lhe perguntavam “como você está?”, “precisa de alguma coisa?” ou ofereciam convites genéricos como “vamos parar num bar depois do trabalho?”. A condescendencia atendecdia a empatia. Daniel respondia no automático. Nada disso afastava os pensamentos que agora eram tão parte dele quanto eram as mobílias parte da casa em que morava.
Lembrava da umidade morna da mão dela, do cheiro cítrico de creme hidratante. Levou os próprios dedos ao nariz em busca de alguma sobra. Só havia o cheiro comum da pele. Decidiu voltar para casa a pé, não morava muito longe, e no caminho, permitiu-se perambular pelas ruas, sem rumo. As imagens da sua memória vinham como trailer de festival de cinema: comemos aqui, nos beijamos ali, compramos um sofá ali. Não acredito que tivemos coragem de fazer aquilo ali, ela era ousada, louca, corajosa e divertida. Aquela é a cor favorita dela. Ela odiava usar tênis. Ela tinha vergonha de usar saias mais curtas, mas elogiava a beleza das próprias pernas. Tomamos um sorvete ali, e foi ali que planejamos uma viagem que nunca aconteceu, mas o sorvete estava gostoso. Lembro que ali foi onde tivemos a nossa primeira briga. A história da cidade se confundia com a hsitória deles. Precisava chegar logo e dormir.
Ao entrar em casa teve a impressão de ouvir uma música abafada pela porta. Reconheceu na hora. Era a “música deles”, uma música que ele não conseguia escutar mais. Talvez tivesse esquecido o som ligado. Não se lembrava de ter escutado música antes de sair. Abriu com pressa e a única coisa que ouvia era o som dos próprios passos no corredor vazio.
Daniel fechou a porta de novo, por impulso, e ficou parado do lado de fora, com um pé ainda na soleira, aguçando os ouvidos. Considerou a possibilidade de ter escutado apenas na própria cabeça. Estava dormindo mal, e já começava a se sentir confuso.
Abriu a porta outra vez, e para sua total surpresa e espanto, todos os objetos que tinha separado e guardado com Israel, estavam de volta no lugar. Os quadros com fotografias dela haviam voltado às paredes. Os bibelôs que pressionavam os livros favoritos dela nas estantes, impedindo que tombassem. Os CDs estavam alinhados. As canecas ocupavam o lugar habitual. Lápis, canetas, blocos de anotações com a letra dela. Tudo estava ali, organizado do jeito que ela deixava. Pegou o celular e ligou para Israel.
“Você veio aqui em casa?”
“Oi? Hoje? Não, por que eu iria aí sem você? Eu tava no trabalho o dia todo, já esqueceu?”
“Todas as coisas estão de volta no lugar.”
“Tem certeza de que não foi você que colocou tudo de novo?”
“Como eu poderia? Eu não tenho a senha da porta!”
“Você não ficou bisbilhotando quando eu abri ontem?”
“Claro que não cara!”
“Pelo visto, a gente devia jogar tudo no lixo.”
Desligou sem responder. Israel ligou de volta, mas ele não atendeu. Tornou a recolher as coisas para dentro de uma caixa, mas sem o cuidado excessivo da primeira vez. Pensou em levar ao lixo, mas mudou de ideia. Decidiu ir até o terreno baldio no final da rua, para queimar tudo.
Enquanto fechava a caixa, não conseguia expulsar a vontade de desistir, e apenas conviver. Não tinha tanta certeza de que passado o luto, pudesse olhar para aquelas coisas com menos peso. Queria poder guardar alguma memória sem que ela o atravessasse por inteiro. Mas quando saiu para fora de casa, a respiração pareceu mais leve, ainda que por um breve momento. Um passo de alívio, outro de culpa. Segurando a caixa com força, não sentiu vontade de voltar para casa.
4
Cinco dias depois de queimar tudo, Daniel já conseguia calçar os sapatos com mais tranquilidade. A lembrança dela, do espaço vazio que ficava na cama em que dormiam juntos, parecia estar mudando de lugar. Saía da frustração e se acomodava numa aceitação ainda incômoda, mas menos sufocante. Dormia menos pesado no travesseiro. Às vezes se permitia até mesmo a chorar pela namorada que não dividia mais o mesmo mundo que ele.
Naquela noite, depois de retornar de um encontro com o grupo do trabalho, ao destrancar a porta, a chave não girou. Tentou diversas vezes até que a chave se quebrou. Ficou parado estupidamente, com a mão ainda segurando o o toco de chave quebrado, sem entender o que tinha acontecido. Precisou chamar um chaveiro de emergência, que, antes de falar boa noite, avisou que teria que cobrar o triplo do valor normal por causa do horário.
“Eu acho que bebi muito.” Daniel tentou justificar.
“Nada disso”, disse o chaveiro. “Você só tentou abrir a porta com a chave errada. Você tem uma cópia?”
“Não abri com a chave errada, eu só carrego uma chave no bolso.”
“Então você trocou a fechadura e se esqueceu de trocar a chave.”
“Eu me lembraria se tivesse trocado a fechadura da minha casa.”
“Bem, de qualquer forma, eu troquei por uma nova e agora você tem duas cópias da chave. Aliás, você anda meio desatualizado. Tem tranca biométrica, tá entendendo?”
Daniel prendeu as duas chaves num mesmo chaveiro com formato de moto, com a inscrição “Chaveiro Em Duas Rodas”. Perguntou sobre o sistema com sensores de presença, em que casa reconhece apenas quem está cadastrado, e é mais seguro contra invasões.
Entrou cambaleante, largando as roupas pelo corredor, dando a ordem para o sistema de automação acender as luzes e foi direto para o banheiro. A cabeça girava tanto que quase caiu dentro do box. Deitou na cama ainda molhado, sem trocar os lençóis, e apagou.
Acordou com dor de cabeça e um amargo na boca. A vista estava embaçada, enxergando apenas a silhueta dos objetos. Tinha sonhado com ela. Ela estava no rio, molhada, imersa, e chamava por ele. Ele tentava alcançá-la, mas as mãos lhe pesavam como chumbo.
A cabeça pendeu pesada para a janela. Procurava o mundo e a fragrância fresca das primeiras luzes da manhã. Saltou da cama, em total pavor, quando viu o porta-retratos branco na mesa de cabeceira. Tinha manchas de queimado mas a foto estava intacta. Segurou a fotografia sem acreditar, tentando encontrar algum detalhe fora do lugar. Nada. A mão vacilou e o quadro caiu no chão. Correu para o banheiro e lavou o rosto repetidamente. Esfregou os olhos com raiva, tentando tirar com as mãos os resquícios das lembranças.
Quando voltou, o quadro estava mais uma vez sobre a mesa de cabeceira, torto e desafiador. Uma ideia lhe caiu na cabeça, gotejada do céu, e saiu às pressas pela casa. Não podia ser possível, mas era. Abrindo todas portas e gavetas, cada movimento era um golpe de frustração. Tudo o que tinha queimado estava de volta em seu devido lugar.
Parou no espelho do quarto, e os seus olhos estavam fundos, cansados, difíceis de sustentar. Pensou que talvez a ausência dela estivesse distorcendo tudo. Ou talvez estivesse exagerando, mas desconfiava que a casa não o reconhecia mais. Guardou a fotografia numa gaveta e fechou com força. Ficou ali, com o peito ardendo em brasa enquanto tentava respirar o ar pesado daquela casa que tinha dividido com ela, as mãos na cabeça, agarrando e desordenando os cabelos pegajosos, suados e gordurosos.
Os passos no chão pesavam ainda mais com o desgosto de ser contrariado pela própria casa. Gritou com todas as forças:
“Ela não está mais aqui! Está entendendo? Ela não mora mais aqui! Ela se foi!”
5
Depois de quinze dias, desistiu de se livrar das coisas e conformou-se em apenas conviver. Seria mais simples do que lutar. Com Israel, nem palavra. O amigo lhe era estranho agora, evitava-o, dava desculpas. Não almoçaram mais juntos, e nunca mais saíram para beber. Fazia tudo sozinho.
Em uma noite achou que sentar no sofá para assistir TV lhe faria esquecer um pouco. Passava os canais sem atenção, mas a programação parecia falar dele. Pensou ter ouvido som de passos no teto. Gatos, talvez, aquele bairro estava cheio. Ignorou por um momento, mas os passos ficaram mais intensos, parecendo vir de dentro da casa. Ele colocou o som no mudo para prestar atenção, mas não escutou mais nada.
Voltou a assistir. Estava passando um filme sobre um pai sofrendo pelo filho dependente químico. Acompanhava sem muito interesse quando a porta do quarto bateu com tanta força que alguma coisa caiu dentro do quarto. O impacto o fez levantar de um salto. Era o vento forte anunciando chuva, então fechou as janelas.
Voltou para o sofá, notou a luz do quarto acesa. “Apagar luz do quarto” ordenou. Depois de alguns segundos, a luz acendeu de novo. Colocou a TV no mudo e gritou:
“Quem é?”
A voz soou estranha, frágil e ridícula. Limpou a garganta e repetiu a pergunta, mais alto. Não houve resposta, obviamente, pensou. O seu corpo inteiro ordenava ficar onde estava, parecendo o peso de andar contra a corrente de um rio feroz, mas foi até o quarto. Olhou atrás da porta, sob a cama, abriu o guarda-roupa. Seguiu pela casa, cômodo por cômodo, convencido de que alguém estava ali, talvez brincando com ele. Porém, nada.
Pegou o celular e ligou para Israel.
“Não sei como você está fazendo isso, mas agora acabou a gracinha cara.”
“Oi, pra você também. Do que você tá falando?”
“Você hackeou minha casa cara. A luz tá acendendo sozinha aqui”
“Do que você tá falando cara? Eu nem tô em casa.”
“Para de graça Israel. Você tá me zoando? As coisas dela estão todas aqui de novo, é você quem tá trazendo de volta!”
“Você não tinha queimado tudo?”
“Eu queimei tudo!”
“Então de novo, do que você está falando?”
“Tá tudo de volta aqui em casa, não sei como, mas você colocou tudo aqui de volta!”
“Daniel, se acalma. Olha, não é nem oito da noite ainda. Eu recomendo que você se acalme e vá dar uma volta. O que você tá passando é difícil, eu entendo, e isso já tá te afetando. Eu acho que você precisa de ajuda. Todo mundo no trabalho tá percebendo. Eu conheço uma pessoa…”
“Vai se ferrar, Israel!”
Andava pela casa sem saber para onde ia. Estacou quando viu que o porta retratos branco agora estava sobre a mesa de centro da sala, apoiada torta, colocada às pressas. E ela ali, com sua beleza cruel à beira do rio. Mas agora trazia um olhar diferente, antes sedutor, ao invés disso, cheio de raiva, ressentimento e desafio. A casa é minha, pensou.
Vestiu um par de calças, colocou os sapatos, pegou o guarda-chuva e saiu para o bar que ficava do outro lado da rua. Entrou e apressadamente pediu uma cerveja. Sentou-se no balcão de frente para a janela, de onde podia ver a casa.
Terminou a cerveja e pediu outra. Depois pediu uma dose de uísque. Bebia tentando manter as mãos firmes. O bartender perguntou se estava tudo bem, mas não respondeu. Depois da sexta dose, parou de ser servido. Apagou.
6
Acordou outra vez na própria cama sem se lembrar como tinha chegado ali. O tornozelo doía. O joelho ardia e estava ralado. Levantou, tomou banho, vestiu-se e seguiu a rotina sem pensar muito nas coisas, isso já lhe cansava.
Estava prestes a sair para o trabalho, mas a chave não girava pelo lado de dentro. O chaveiro em formato de moto e as duas chaves estavam intactos. Forçou tanto para abrir que quebraram. Furioso, chutou a porta até a fechadura ceder. Avisou no trabalho que se atrasaria e ligou para o chaveiro, que voltou pela segunda vez naquele mês. Observou a porta por alguns minutos antes de falar que a fechadura instalada não era a mesma. Precisou trocar tudo de novo.
A casa passou a agir sozinha. Acendia luzes, abria portas, ligava os eletrônicos. Não o obedecia mais. Tentou ativar o sistema de segurança pelo painel e a biometria falhou. Tentou de novo. A tela exibiu uma mensagem curta. Usuário não reconhecido. Falou em voz alta:
“Apagar luz da sala.”
Nada aconteceu.
“Desligar sistema de áudio.”
A música continuou. Baixa. Quase imperceptível.
Tentou outra vez.
“Ativar assistente.”
Depois de alguns segundos, a voz da casa respondeu, neutra, sem erro de entonação.
“Apenas o administrador do sistema pode ativar comandos de voz.”
Daniel engoliu seco.
“Eu sou o administrador do sistema, inferno!” Mas o sistema não o reconhecia mais.
Teve a ideia de desligar o sistema manualmente mas os botões também não respondiam. Tudo estava fora de sincronia. O relógio da parede marcava um horário diferente do celular. O do micro-ondas marcava outro. As luzes acendiam, a música acionava, os eletrônicos agiam por conta própria.
Daniel sentou no sofá, com o corpo rígido, tentando organizar uma explicação plausível. Podia ser um bug de uma atualização automática ou alguém realmente tinha hackeado sua casa. Talvez alguma configuração antiga que ele não lembrava de ter apagado. Mas junto com toda a sua racionalidade, algo muito mais ancestral, ele sabia que havia a possibilidade. A casa não estava falhando. A casa estava escolhendo.
7
No trabalhoa as pessoas o evitavam. Falavam dele em sussurros e chochicos. Seu chefe já o olhava com desconfiança, considerando substituílo. Ao fim do expediente não teve coragem de voltar para casa. Estava vivendo um problema pessoal, um demônio íntimo, quem sabe. Mas era um problema não no sentido grandioso que as pessoas gostam de dar às coisas erradas. Era mais simples, mas ainda assim, mais incômodo. Algo fora do lugar que se recusava a se explicar.
Estava bebendo demais. E bêbado, poderia estar recolocando as coisas dela nos lugares de sempre, trocando fechaduras, acionando sistemas sem lembrar depois. A ideia não o tranquilizava, mas forçava a lógica a aceitar. O único problema é que nada disso explicava a luz acendendo sozinha. Nem os sons vindos de cômodos vazios. Nem o fato de a casa parecer funcionar sem ele.
Também é idiotice pensar que são fantasmas ou assombrações. Rejeitou tudo quase imediatamente. Nenhuma dessas coisas trocaria uma fechadura durante a madrugada. Nenhuma faria cadastro biométrico.
No bar, sentou no mesmo lugar de antes. Pediu água. Observava a casa do outro lado da rua. As janelas estavam escuras. A fachada imóvel.
O bartender se aproximou, visivelmente contrariado.
“Foi você quem me levou pra casa?”
“Levar gente bêbada pra casa não faz parte do meu trabalho, cara.”
“Como eu fui pra casa da outra vez?”
“Como que eu vou saber? Você saiu daqui tropeçando nos próprios pés e até caiu na calçada.”
Colocou a mão no joelho por reflexo e se desculpou. Observava, reservado, introspectivo, as coisas acontecerem. Era um absurdo esperar que uma casa funcionasse sozinha, mas já havia ultrapassado os limiares da lógica. Não beberia agora, e faria de tudo para não racionalizar demais. Tentaria se convencer de que era um exagero. De que ela não estava mais lá, que ele vivia o luto, magoado, profundamente delirante com as lembranças. Como todas as pessoas vão um dia, o que ele sentia só podia ser culpa e apego.
Algo que passava na TV o distraiu. Sorriu de leve, sem perceber. Logo depois, seu olhar voltou para a casa. A luz do quarto parecia ter se acendido por trás da cortina. Quando fixou os olhos na janela, a luz já estava apagada.
“Você viu aquilo?” perguntou para as pessoas ao lado. “Você viu a luz acendendo naquela casa?”
“A luz tá apagada, cara.”
Só restou aceitar mas observava ainda mais fixo e obcecado do que antes. Já não tinha mais certeza de nada, exceto de uma coisa incômoda que começava a tomar forma. Por um momento, convenceu-se de que talvez ela ainda estava lá com ele.
8
Despertou com o alarme do celular. Estava vestido com roupas diferentes da noite anterior, a camisa amarrotada, o cinto ainda preso. O celular carregava na tomada. Não se lembrava de ter feito nada disso.
Deslizou o corpo devagar para a beirada da cama. A cabeça doía menos do que esperava, mas os braços pesavam. Caminhou até o banheiro e reparou que o espelho tinha marcas de dedos na altura do rosto, como se alguém tivesse se apoiado ali por um tempo. Lavou o rosto mas o alívio não veio. A clarividência do despertar só lhe trouxe mais peso, mais sufoco, mais dor.
No trabalho, depois de enviar o mesmo documento errado três vezes, e de passar horas traduzindo um texto que já havia sido entregue antes, as pessoas já começavam a sugerir que ele tirasse uns dias de licença, ou que procurasse ajuda.
Na volta para casa, sentiu um incômodo físico ao se aproximar da rua. O corpo reagiu antes do pensamento. Diminuiu o passo, observou a fachada da casa como se estivesse olhando para algo que não reconhecia mais como seu. O corpo paralisou com o medo que lhe congelava o sangue. Decidiu não entrar. Voltou para o bar.
Ficou até mais tarde do que pretendia e de novo, não bebeu. Com os olhos fixos na casa, estava esperando um sinal, qualquer coisa. Na sua cabeça tudo iria acontecer de forma premeditada, como um script. Esperou por muito tempo, pareceram horas. Ao seu redor, o ir e vir dos clientes era um borrão em alta velocidade. As vozes se misturavam em um rumor esquisito e confuso. Cansou de esperar. Chega, isso já é um insulto à minha inteligência e ao meu orgulho de homem! Estou cansado demais para continuar evitando. Pagou a conta. Cruzou a rua.
Parou diante da porta quando notou algo diferente. Afastou-se um passo. Olhou a porta com atenção e dúvida. O sensor de presença estava instalado, e travou o acesso para ele. Tentou a biometria, mas não funcionava. Uma voz protocolar saiu de algum ponto, baixa.
“Acesso negado.”
Daniel recuou.
“Apenas o administrador da residência pode autorizar a entrada.”
Ele sentiu um frio curto na nuca. Encostou a testa na porta.
“Sou eu”, disse, sem saber por que estava explicando. “Essa casa é minha!.”
A voz protocolar repetiu a mesma mensagem, e Daniel já gritava:
“A casa é minha! É minha!”
Daniel bateu na porta, a mão lhe doendo, mas ele já não se importava. A língua lhe doía entre os dentes cerrados com raiva e agressividade, os ombros já doíam de tão tensos, e as pernas cambaleavam pela força que aplicava nos murros, seguidos, um atrás do outro.
“Abre, abre, abre!.”
Do lado de dentro, algo caiu no chão. Um som doméstico, comum Ouvia sons de talheres e pratos se chocando, e de uma casa que funcionava sem a necessidade da presença dele. Conseguia ouvir o abrir e fechar de portas de armários e estantes, os sons de descargas e chuveiros, e das coisas residenciais voltando aos lugares que lhes pertenciam.
“Abre! Abre a porta! A casa é minha!” Mas a porta teimava em não abrir.
Ficou plantado, como um grande idiota, sem tentar mais nada. Afastou-se e sentou no degrau da entrada. Olhou a rua vazia. Os vizinhos estranhavam a sua presença.
9
Voltou para o bar, e bebeu um copo atrás do outro, insultando todo mundo que tentava demonstrar qualquer preocupação. Israel ligava, mas ele não atendia. Não queria mais voltar para casa daquele jeito, mas também não queria mais existir como um observador sendo expulso da própria vida. Ficar ali plantado, olhando passtivamente não estava resolvendo nada. A casa continuava no mesmo lugar, igual a todas as outras noites, imóvel demais, mas também bastante provocativa.
Pagou a conta ignorando os comentários do bartender, e com passos firmes atravessou a rua. Estava bêbado, mas não cambaleava. O corpo estava cansado, mas a decisão era clara. Não pensava em explicações. Pensava apenas que precisava entrar.
Ao se aproximar do portão, encostado à parede, ao lado da porta, percebeu o reflexo prateado de uma mala grande, preta, com rodinhas gastas. Agachou-se e puxou o zíper. Dentro havia todas as suas roupas, dobradas, limpas e organizadas Levantou-se devagar. O coração acelerou quando ouviu vozes do outro lado da porta.
“Alana, você viu minha toalha?” agora tinha certeza de que ela tinha voltado a morar lá. Reconheceu cada inflexão, cada pausa curta entre as frases. Reconheceu as variações melódicas da sua risada e a languidez sensual da sua fala. Reconheceu até mesmo o sussurro do seu flerte. Era com certeza ela.
Havia outra voz masculina, que falava com calma e tranquilidade. Ela respondeu algo que Daniel não conseguiu distinguir, mas o tom era de intimidade. Não havia tensão ou dúvida. Era uma conversa de casal, e começou a sentir que não devia estar ali.
Encostou a mão na porta e o estômago se contraiu. Não tentou abrir. Não bateu. Permaneceu imóvel, com o coração rasgado, ouvindo os sons dela andando pela casa.
Deu um passo para trás. Depois outro. Olhou novamente para a mala no chão. Fechou o zíper, puxou a alça retrátil e saiu. As rodinhas faziam um ruído seco na calçada. As vozes dentro da casa continuavam, mas nenhuma era sobre ele.
Atravessando o portão e subindo na calçada, a mala pesava em suas mãos, enquanto sua sombra, recortada pelo espelho prata da Lua, guiava o seu caminho. Pensou na porta da sua casa se fechando, e sabia que agora, era definitivo.
Dentro da casa, o sistema acabava de registrar a saída de um usuário não autorizado. O administrador permaneceu ativo.
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