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Fanfarra (ou matraca) da Derrota

Olá de novo!

Eis que venho falar de um dos meus poemas que mais causou polêmica entre os meus amigos, familiares, conhecidos e poucos leitores. Primeiro gostaria de falar das origens do título. Afinal, por que Fanfarra (ou matraca) da Derrota?

Fanfarra é, usualmente, um toque de trombeta, que tem por intuito anunciar alguma coisa. No período onde as monarquias imperavam, ou melhor, posso dizer a grosso modo, no período medieval, a Fanfarra era tocada todas as vezes que um tipo nobre ou real estava chegando em algum lugar público (palácio, castelo, igreja, praça - muito duvidosa para esta última, mas voilá). Então venho com uma fanfarra anunciar a derrota. E de onde raios vem matraca? A utilidade é um pouco mais abrasileirada. Matraca é um termo que eu conheci lendo o conto O Alienista de Machado de Assis, onde em um momento, um homem chega com uma matraca (aquela mesma do programa Chaves) para anunciar uma notícia de interesse público. Geralmente ele aparece em uma praça, gira a matraca, que é um objeto bem barulhento e peculiar, e anuncia. Por fanfarra ser demasiado europeu, e por eu ter um gene assim um tanto quanto xenófobo à primeira vista, pensei que o anúncio da derrota também era de direito dos meus compatriotas. Ainda mais porque o poema é um grito de desgosto por tudo o que eu em certa época desacreditei, e isso pelo fato de um dia ter acreditado em excesso em certas coisas que envolvem o meu próprio país.

E naquele tempo, que nem faz tanto tempo hoje, em 2006, eu estava numa angústia solitária de não conseguir entender um monte de coisas, e num desprazer de tentar empreender tarefas que já nem faziam mais sentido. Estava desgostoso com a família, com os relacionamentos, com os sonhos. Muito além disso, eu já nem acreditava mais em militância política, em reforma da educação, não acreditava mais nos meus heróis que tinham vencido as eleições de 2002, não acreditava nos meus amigos próximos e distantes, e não tinha mais ânimo para fazê-los crer em mim. Já tinha perdido a ânsia pelas relações superficiais, e aos 21 anos de idade, eu sentia como se a vida já tivesse sido completamente vivida em pensamentos e reflexões, ainda que não tivesse vivido realmente como ela é. Para muitas pessoas isso é difícil de entender, mas às vezes uma experiência é tomada por conhecida ainda que não experimentada, e este fato dá uma sensação horrível de dissabor. É algo que vai além do toque físico, e que não me perguntem, eu não saberia como explicar. Muito para mim, naquela época, já nem era mais novidade, e eu via falsidade e dualidade nos olhares de todos e qualquer um. Foi quando olhei para o espelho e perdi a crença até mesmo em mim, e vi que eu era só mais um no meio de tudo aquilo, e que em nada eu era diferente. Mas o estopim foi o difícil relacionamento que eu tinha com meu pai naquela época. Quando a isso, tudo bem, hoje eu entendo que duas cabeças de idades e épocas diferentes hão de conflitar se se prenderem às questões fundamentais. Não quero nutrir relacionamentos superficiais com os que me amam, mas para os que me amam e eu não tenho a humildade de compreender, eu quero me limitar apenas em amá-los. O restante só causaria contendas e dores evitáveis.

Já achei que depois de algum tempo de recuperação pessoal, depois que já tinha reestabelecido o meu gosto pela vida, cheguei a pensar que este poema tinha perdido o sentido. Mas vejo que não, vejo que muito dele se sustenta, vejo que ainda existem pessoas presas em conceitos alheios por não saberem pensar por si mesmas. Ou vejo pessoas orgulhosas que sustentam uma inabalável incapacidade de descer um pouco de si mesmas, e perceber, compreender e respeitar as escolhas do outro. Vejo pessoas que perdem suas vidas com ideologias distantes, e não entendem as diferenças constantes. Vejo que ainda estou rodeado de estúpidos arrogantes que usam das suas próprias deficiências as suas defesas contra aqueles que tem autenticidade e querem diferenciar ao menos o seu arredor, tentando agir da maneira mais simples possível. Vejo pessoas que ficam presas na ilusão do macro, acomodadas, enquanto deslancham suas implacáveis imbecibilidades pelos amáveis que se movem pelo micro. Até mesmo duros de direção religiosa, e que se esquecem que o próprio Deus construiu o universo de dentro para fora. Enfim, a estes eu anuncio a derrota estúpida da sua inflexibilidade.

Boa leitura!


Fanfarra (ou matraca) da derrota

Eu venho aqui anunciar a derrota do homem vivo.
O homem que salta, olha pra cima, alcançando o céu
Estende a mão, estica os músculos, atiça o coração
Sorri pra si mesmo, e cai, com a cara estatelada no chão.

Eu venho anunciar a derrota do homem morto
O homem espelho, que olha para os outros como a si mesmo
O homem envelope de carga tributária, que sorri com dente dourado
Mas é amarelo
É dourado?
É muito amarelo.

Eu venho anunciar, com desgosto, a derrota do homem bobo
Que ri para a borboleta pousando no prato de acelga
Que suspira de tristeza diante dos banheiros públicos
Do homem bobo que sobe na vida sem querer
E quando vemos,
Está sempre no mesmo lugar.
O que faz aí parado, debaixo da chuva?
- Estou tentando decifrar o código de mensagens da Lua Nova.

Anuncio a derrota do homem ventríloquo
Com todos os seus bonecos armados
E dissimulando com a boca
Os discursos que queremos ouvir.

O homem lápide, que enterra a si mesmo.
O homainframe que se auto denomina
E não age sem ler o diário de notícias.

Eu anuncio a derrota dos casos de amor
Que não duram além da vida de uma rosa
E esta morre antes que seja atingida
Pelas doces palavras do homem apaixonado.

Anuncio a derrota do homem revolucionário
Que olha cegamente para o futuro
Esperançoso naquele que o fortalece
E com medo de perder-se de si mesmo.

A derrota dos já derrotados antes de lutar
Anuncio a proliferação e materialização dos ideais
De todos os ideais
Os ideais de Ésquilo
Sófocles
Eurípides
Aristófanes.

Anuncio a morte da nuvem
Anuncio o nascimento do espírito
Anuncio a guerra contra as ondas de som
As ondas dos balburdias
Das palavras balbuciadas
Dos choros, e dos prantos desesperados!
Dos gritos de horror, tapados com a música de Chopin
As belas valsas de Chopin...
Anuncio a imagem do ranger dos dentes
Do rosnar a garganta, e forçar as cócoras.
Anuncio a dor de estômago
A dor cardíaca
A dor neurocerebral
A dor física
Espírita
e A Dor
Em nome do Pai
Filho
E Espírito Santo, Amén.

Anuncio a derrota da Dor
Anuncio a derrota da cura.
Anuncio a derrota das palavras.
A derrota das vozes.
A derrota dos olhares
A derrota das direções
A derrota dos sentidos.

Grito, em silêncio
Com o som extremo das canetas
O som das teclas de computador
Dos alaúdes amiúdes
Dos amiúdes sons das guitarras
Anuncio em desânimo a derrota da poesia
Para a técnica.

Anuncio a derrota do silêncio
Que não existe
Anuncio a derrota da paz
A derrota da procura incessante
Da incessante e desesperada procura de procurar
Anuncio a derrota da causa
E do efeito
E da terceira dimensão
E da quarta
E quinta
E quantas outras estiverem por vir...

Anuncio a derrota do futuro,
Pois ali adiante está a grande muralha
Que não pode ser derrotada
Pois já derrotamos a nós mesmos
Com nossas próprias mãos.

Anuncio a derrota da desesperança
E do fato consumado em verdade
Derrotadas pela emoção de sentir o hoje
Anuncio a derrota do hoje,
Que não se pega
A derrota de tentar entender
O que não se entende
E a derrota do egoísmo de não aceitar essa derrota.

Anuncio a minha derrota, antes de anunciarem a mim.
Anuncio aqui, a derrota final
De todos os que se viram vitoriosos
Pois enfim ninguém venceu, e nunca vencerá.

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